A MORTE DE EDWARD SAID

Arnaldo Moraes Godoy (*)

 

                O intelectual palestino Edward Said morreu de leucemia após doze anos de luta contra a medonha doença. Viveu sessenta e sete anos, desassossegado com uma identidade palestina que teimava em formatar. Said nasceu em Jerusalém, cidade sagrada pelas religiões, profanada pela política, ultrajada pela ganância, símbolo da vastidão e da exiguidade humanas. Foi criado em ambiente pietista anglicano, comprovando que casamentos e adultérios de Henrique VIII propiciaram doutrina que cativou até radicais levantinos. Said foi criado no Cairo e valendo-se da nacionalidade secundária norte-americana do pai viveu em Boston e estudou em Harvard. Desde 1963 lecionava em Nova Iorque, ambiente cosmopolita que o albergou e que presenciou sua morte.

                Said sentia-se um errante. Como todas as crianças inventou e criou seus pais, família, história. A riqueza do pai comerciante propiciou educação primorosa, elegante. Said militou na OLP- Organização Pró-Libertação da Palestina-, da qual afastou-se em oposição a Arafat, decepcionado que ficara com a corrupção das elites árabes.   Crítico da cultura, concebeu o oriente como invenção funcional do ocidente. Esse último caricaturou aquele primeiro, opondo progresso e atraso, civilização e barbárie. Romantizado em túnicas, camelos e sabres e sistemáticas orações prostradas para a cidade do Profeta, o oriente protagoniza estereótipos que justificam carnificinas, como recentemente vê-se em Bagdá.

                Edward Said apontou para os enigmas dessa globalização perversa. Denunciou esse palco sangrento no qual os descontentes com a paz matam em nome de verdades messiânicas, tradutoras da ganância e da miserabilidade de uma existência centrada na burrice destruidora de espaços pluralistas e compreensivos. São esses poderosos que manipulam a cultura, criando uma falsa ética a partir de uma duvidosa estética, dimensionando a gangrena moral de nosso tempo.

                Ouve-se um estranho ruído. É que os anjos choram, enquanto os perversos comemoram um mundo cada dia mais vazio de idealistas e humanistas. Morreu Edward Said, para quem a cultura também perfila perversas proezas.

 

(*) Pós-doutor pela Universidade de Boston. Doutor e Mestre em Filosofia do Direito pela PUC-SP. Procurador da Fazenda Nacional.