DIREITO E
LITERATURA: LIMA BARRETO E O PROBLEMA DA VERDADE NO HOMEM QUE SABIA JAVANÊS.
Arnaldo Sampaio de
Moraes Godoy
(Professor Doutor Pesquisador da Universidade Católica
de Brasília).
Resumo: O ensaio trata do conto O Homem que Sabia Javanês, de Lima
Barreto, à luz de prováveis desdobramentos jusfilosóficos.
Relaciona-se ética e verdade. Revela-se, mais uma vez,
escritor comprometido com relações humanas marcadas pela transparência. O texto
permite aproximação entre Direito e Literatura.
Palavras-Chave: Direito. Literatura. Lima
Barreto. O Homem que Sabia Javanês.
Ética. Verdade.
Abstract: The paper approaches a
famous Brazilian short-story, The Man who
Knew Javanese, written by Lima Barreto. It does
so from the vantage point of it’s unfolding in terms of jurisprudence. It
relates Ethics to Truth. Once again, one tries to reveal a Brazilian writer
quite attached to the improvement of human relations. The paper allows some
fruitful relation between Law and Literature.
Key-Words: Law. Literature. Lima Barreto. The Man
who Knew Javanese. Ethics. Truth.
Sumário:
1)
Introdução e Contornos da
Investigação
2)
Síntese e Retomada da Narrativa
3)
O Problema da Verdade no Homem que Sabia Javanês
Referências Bibliográficas
1)
Introdução e Contornos da
Investigação
A relação entre direito e literatura sugere que se
abandonem fronteiras epistêmicas clássicas. A par do direito na literatura, que consiste em se
alcançar aspectos jurídicos na produção literária de ficção, pesquisa-se também
a literatura no direito, isto é, pretende-se
fazer teoria e crítica literárias em textos jurídicos, que variam de decisões
judiciais a petições, com estações em excertos de doutrina; toca-se em material
burocrático, que não despreza o conteúdo das próprias normas jurídicas.
Neste último sentido, recorre-se
à antiga classificação aristotélica, referente às modalidades do discurso (tema
de retórica). Ao lado de discursos deliberativos (proferidos em assembléias
políticas, onde se aconselha ou desaconselha, identificando-se o útil e o
nocivo) e de discursos epidícticos (centrados no ouvinte, a exemplo de orações
fúnebres, instâncias de louvor ou de censura, quando se separa o nobre do vil),
encontram-se também discursos judiciários (típicos dos tribunais, acusando-se ou
defendendo-se, buscando o justo e o injusto). É esta a taxonomia aristotélica. Estes
últimos, discursos judiciários, permitem que se capte a literatura no direito,
menosprezando-se a estética romântica, para a qual a literatura só seria
identificada na ficção.
Há quem veja com ceticismo a
aproximação entre direito e literatura; é que o conhecimento geral que a
literatura propicia não se prestaria para solucionar questões marcadas pela
lógica e pela abstração (cf. BARON, 2004, p. 2273). A aproximação entre esses
dois campos do saber é ambiciosa (cf. WARD, 1993, p. 323 e ss.). A literatura
permite que a discussão de problemas jurídicos tome os mais inesperados
caminhos (cf. ARISTODEMOU, 1993, p. 153 e ss.). Cria-se campo interdisciplinar
no qual se engendra crítica cultural muito expressiva (cf. POST, 2000, p. 1247
e ss.). É mais uma tentativa de se aproximar o direito com demais núcleos de
compreensão humana (cf. BARON, 1998, p. 1059). O modelo afirma o papel
transcendente da literatura nas sociedades contemporâneas (cf. SEATON, 1999, p.
479 e ss.)
No presente ensaio, no entanto, procuro
o ambiente literário para problematizar temas de interesse de filosofia jurídica.
É nesse sentido que busco no conto O
Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto, substrato para crítica sobre a
relatividade da verdade, com projeções na fala e ideais normativos, que
desprezam o sentido grego de άλεθέια
(aletéia-verdade) em favor de verossimilhança,
percepção já anunciada por Aristóteles nos Tópicos,
capítulo do Organon,
que trata dos silogismos dialéticos, base da retórica, que renasce em Chaim Perelman, não obstante
desprezo recorrente na tradição ocidental, plasmada nos cânones do cristianismo
e da racionalidade.
Trato de Lima Barreto. Ele viveu
estado de permanente exclusão, o que certamente justificou o alcoolismo crônico
que o derrubou, tirando-lhe a vida ainda muito jovem. Lima Barreto faleceu com
pouco mais de 40 anos. Observador de ordem política que nascera da escravidão -
- ele mesmo descendente direto de escravos - -, e que se fizera aliada de bacharelismo
oco sem limites, Lima Barreto criticou a cultura oficial que ornava o Brasil
dos bacharéis. Hostilizou cultura de ornamentos, fazendo-o especialmente na
pessoa do Barão do Rio Branco. Este último conduzia o Itamaraty como quem
dirige a própria casa. Rio Branco morava em palácio governamental, e Lima
Barreto insistia que o velho barão não fora autorizado para tal. As nomeações
que se faziam no Ministério das Relações Exteriores evidenciavam o desprezo do
Barão para com os excluídos. Lima Barreto sempre criticou o modo como se
recrutavam representantes brasileiros no exterior. O Itamaraty era espaço para
a elite.
Lima Barreto faz com que
reflitamos a propósito da verdade, e de sua validade em âmbito pragmático,
quando fins e meios tendem a se justificar mutuamente. Isto é, Lima Barreto deslegitimou
a mentira como mecanismo de ascensão social. Ele viveu à margem, amanuense no
Ministério da Guerra, com salários que permitiam sobrevivência frugal, situação
que se agonizava com a necessidade de cuidar da família, sustentando o pai (que
sofria de demência aguda) e os irmãos. Especificamente, indagava Lima Barreto:
haveria legitimidade em se construir carreira com fundamento em uma mentira? Ele
percebia nos bacharéis trajetórias montadas a partir de bases pouco sólidas. O Homem que Sabia Javanês, parece-me, é texto que denuncia
este estado de coisas.
As presentes reflexões não se prestam para encaminhar
relato piegas, prenhe de moralismo, no sentido de se explicitar que a
literatura faria as vezes de mestra da vida. O que se pretende, do ponto de vista metodológico,
é demonstrar o modo como o ambiente literário pode propiciar reflexões de cunho
jurídico, e de natureza deontológica.
2)
Síntese e Retomada da Narrativa
O narrador, Castelo, relata a um amigo (Castro), em uma confeitaria, como
pregara peças contra “às convicções e às
respeitabilidades, para poder viver”. Narrava também que certa vez em
Manaus escondera a qualidade de bacharel, “para mais confiança obter dos clientes,
que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho”. O traço crítico ao bacharelismo é nítido. Castelo
trabalhava no serviço diplomático, chefiava um consulado. O modo como alcançou
a posição é a alavanca que Lima Barreto usou para denunciar o bacharelismo. O artifício
de uma mentira - - Castelo não sabia a língua exótica que um dia se propôs a
ensinar - - fora o ponto de apoio para que obtivesse posição de cônsul.
Confessou ao amigo
que já fora professor de javanês. E acrescentou que fora nomeado cônsul
justamente por isso. Contou que quando chegou no Rio
de Janeiro vivia na miséria, fugindo das casas de pensão. Foi quando leu
anúncio no Jornal de Comércio, que
dava conta de que alguém necessitava de um professor de malaio. Imaginou que se
tratava de ocupação para a qual não haveria muitos pretendentes. E arrematou:
“ (...) se eu capiscasse quatro palavras, ia
apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor
de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis
com os "cadáveres". Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional.
Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao
porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie,
letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. Dito
e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha
do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do
grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna
de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu”. (LIMA BARRETO, O Homem que
Sabia Javanês, 2002, p. 25 ).
A fala remete-nos a diplomata viajado, e disso pode dar prova o capiscasse, que
nos faz recordar verbo italiano que em português teria por equivalente o entender. Por outro lado, pode-se
cogitar de português macarrônico, tal como falado por imigrantes italianos,
anarquistas, que grassavam no Rio de Janeiro do início do século. Lima Barreto
demonstrou que o professor putativo de javanês estava disposto a ganhar a
sobrevivência, não interessa a que custo. E contou:
“ A Encyclopédie
dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em
consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei
pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça dançavam
hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos
jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e
habituar a mão a escrevê-los. À noite, quando pude entrar em casa sem ser
visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no
quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e,
com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente.
Convenci-me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí (...)” (LIMA BARRETO, cit., loc.cit. )
Castelo lembrou que continuava
fugindo do encarregado dos aluguéis dos cômodos, o que evidenciava que a
necessidade de empregar-se era absoluta. Pedia mais tempo, explicando que seria
nomeado professor de javanês, “(...) uma
língua que se fala lá pelas bandas do Timor”. Enviou uma carta ao jornal, oferecendo-se para
a vaga inusitada que se abria. Continuou estudando a exótica língua da Oceania;
não se dedicou com tanto afinco ao alfabeto e às sutilezas do idioma, tal como
se entrava à bibliografia e à história literária da Ilha de Java. E adiantou:
“ Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel
Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua
Conde de Bonfim, não me recordo bem que numero. E preciso não te esqueceres que
entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do
alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder
"como está o senhor?" - e duas ou três regras
de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico”. (LIMA BARRETO, cit., p. 26)
Com sinceridade, descreveu o caminho até o empregador, relatando as
dificuldades passadas, especialmente relativas aos quatrocentos réis da viagem. Do ponto de vista retórico, feito o
exórdio, e apresentado o problema, Castelo tratou de fixar os argumentos
(invenção), de organizá-los (disposição), plasmando narrativa cheia de
credibilidade. Justificava-se:
“ É mais fácil - podes ficar certo - aprender o javanês...
Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, Com maternal
carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do
titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida,
foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza... Era uma
casa enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas não sei porque
me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver
que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam
e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam
desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou mal cuidadas. Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa
com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias.
Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças.
Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas
barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de
velhice, doçura e sofrimento. Na sala, havia uma galeria de retratos:
arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas
molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós,
com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos
vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha
mais antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de
porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade,
a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que
aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos
olhos fatigados dos velhos desiludidos... “ (LIMA BARRETO, cit., loc.cit. ).
Castelo informou que logo em
seguida chegou o dono da casa, um pouco atrasado. Tratava-se de um ancião. Teimosamente
(coisa peculiar de velhos, segundo Castelo), o aluno queria saber onde o
professor aprendeu javanês. Castelo observou que não contava com aquela pergunta.
Disse que imediatamente arquitetou uma
mentira. Teria falado que o pai era javanês, tripulante de navio mercante,
que se estabeleceu nas proximidades de Canavieiras, na Bahia, como pescador; que
teria se casado, e que prosperou. Foi com o pai que aprendeu javanês,
explicou-se Castelo. Castro questionou a respeito do físico de Castelo, que já tinha
resposta pronta:
“ - Não sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos
corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem
dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio...Tu sabes bem que, entre
nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches,
guanches, até godos. É uma
comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro”. ( LIMA BARRETO, cit., p. 27 )
O aluno era da nobreza.
Tratava-se do Barão de Jacuecanga. Uma estória curiosa justificaria o interesse
no estudo de língua tão pouco falada por estas bandas, e de utilidade
questionável. O velho então explicou a Castelo porque queria aprender javanês.
A razão determinante era surpreendente:
“- O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é
cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do
Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I,
quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua
esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera,
em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao
morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui,
escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz
felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em
todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental
se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja
feliz." Meu pai, continuou o velho barão, não acreditou muito na
história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o
que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o
a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns
tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm
caído sobre a minha velhice que me 1embrei do talismã da família. Tenho que o
ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias anunciem o
desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que preciso
entender o javanês. Eis aí.” (LIMA BARRETO, cit., p. 28).
Castelo notou que “os olhos do velho se tinham orvalhado”. E
observou que depois de enxugar discretamente os olhos, o Barão lhe perguntou se
queria ver o livro. Depois de chamar o criado, e explicar que havia perdido
todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, e que esta última
tinha apenas um filho, “débil de corpo e
de saúde frágil e oscilante”, ordenou que lhe trouxessem o cartapácio.
Castelo descreveu o livro, que suscitou toda a situação:
“Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes
letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a
folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda
umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das
histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de
muito mérito”.
(LIMA BARRETO, cit., p. 28).
Castelo dissimulou que lera as
informações em inglês. Tomou o cuidado de não revelar ao Barão que o inglês que
sabia lhe possibilitava compreender as linhas gerais do livro. Contratou
condições, preço e hora. Comprometeu-se a fazer com que o velho “lesse o tal alfarrábio antes de um ano”.
As aulas começaram. O ancião não era muito
diligente. Pelo contrário, preguiça e displicência pareciam ser as
características de estudante. Castelo observou que levaram um mês com metade do
alfabeto. O aluno aprendia e desaprendia. A filha e o genro do Barão não se preocupavam
com as aulas. Pelo contrário, alegravam-se com o fato de que o Barão se
divertia. O genro, aliás, impressionava-se com o professor de javanês. Dizia
que aquilo era um assombro. E continuou
Castelo, entabulando relações que lhe abrirão as portas para a vida
burocrática:
“O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão),
era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar
diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o
barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e
pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um
trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que
outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o
encargo”. (LIMA
BARRETO, cit., p. 29).
O compromisso com eventual
verdade foi definitivamente rompido quando Castelo revelou que nada sabia de
javanês (o que o leitor já sabe desde o início), mas que compôs histórias
tolas, a título de traduzir o livro, e que o velho acreditava em todas elas. E
ainda:
“ Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu
crescia aos seus olhos ! Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes,
aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada. Contribuiu muito
para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido
que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao meu javanês; e eu estive
quase a crê-lo também”. (LIMA BARRETO, cit., p. 29).
O bote foi dado. A partir do
genro do Barão, Castelo teria conseguido se aproximar da vida diplomática.
Trata-se do momento mais significativamente crítico do conto, na medida em que
Lima Barreto indicou as linhas gerais que marcaram a entrada de Castelo para o
serviço diplomático. A diplomacia era o sonho de muitos intelectuais, que
disporiam de tempo para dedicação exclusiva ao estudo e às atividades
literárias. Segundo Castelo, eis como ele teria alcançado o Itamaraty:
“Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre
tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio.
E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao
Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as
objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. – ‘Qual!
retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!’ Fui.
Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas
recomendações. Foi um sucesso. O diretor chamou os chefes de secção: ‘Vejam só,
um homem que sabe javanês - que portento!’ Os chefes de secção levaram-me aos
oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com
inveja ou admiração. E todos diziam: ‘Então sabe javanês? É difícil? Não há
quem o saiba aqui!’ O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: ‘É
verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?’
Disse-lhe que não e fui à presença do ministro. A alta autoridade levantou-se,
pôs as mãos às cadeiras, concertou o pince-nez no nariz e perguntou: ‘Então, sabe javanês?’ Respondi-lhe
que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal
pai javanês. ‘Bem, disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia;
o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por
ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em
diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para
Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso de
Lingüística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Müller,
e outros!"
(LIMA BARRETO, cit., pp. 29-30).
Castelo estava definitivamente
empregado. Observou ao amigo que nada sabia de javanês, e que representaria o
Brasil num congresso de sábios. O Barão havia morrido um pouco antes. O livro escrito
em javanês ficou com o filho, que o deixaria para o neto. Castelo foi brindado
no testamento do aluno, com alguns benefícios materiais. Continuava estudando
as línguas malaio-polinésias, porém confessava que não havia forma de as aprender. Comprava livros, assinava revistas. Era
apontado nas ruas como o homem que sabia
javanês. E continuava:
“Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos
pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do
interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos
sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da redação,
escrevi, no Jornal do Comércio
um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna...” (LIMA BARRETO, cit., p. 30).
Contou ao amigo que descrevia a
ilha de Java com o auxílio de dicionários, com alguns livros de geografia, que
citava o tempo todo. O amigo perguntou se alguém duvidara do conhecimento que
Castelo teria do javanês, se já teria passado por algum apuro. Ao que respondeu
o narrador:
“- Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um
sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram
diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os
respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas
fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a
quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal
marujo era javanês - uf!” (LIMA BARRETO, cit., p. 31).
Castelo ainda contou sua
participação no encontro de sábios. O professor
de javanês estava entre os eruditos, era especialista em assunto hermético,
e de conhecimento reduzido a um pequeno grupo de iluminados. Seguro da posição,
e de que sabia javanês, Castelo
atendeu o congresso, com muita segurança:
“Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que
delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na
secção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle
o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente
pediu-me desculpas por me ter dado aquela secção; não conhecia os meus
trabalhos e julgara que, por ser eu americano brasileiro, me estava
naturalmente indicada a secção do tupi- guarani.
Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre
o javanês, para lhe mandar, conforme prometi. Acabado o congresso, fiz publicar
extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores
de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o
banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança
do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.” (LIMA BARRETO, cit., p. 31).
Castelo não se arrependia de
tudo que viveu, e pelo que passou. A opção para o ensino de javanês, uma língua
que desconhecia, fora a alternativa para a
sobrevivência, para que se livrasse das agruras na cidade-grande. Fez-se como
professor de javanês, língua que ninguém conhecia. E justificava-se:
“Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional
e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de
todas as classes sociais e o presidente da república, dias depois, convidava-me
para almoçar em sua companhia. Dentro de seis meses fui despachado cônsul em
Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os
meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.” (LIMA BARRETO, cit., loc.cit.).
A glória nacional, ovacionada
por todas as classes, recebida pelo presidente da república, com quem almoçara,
surgira de uma farsa, de uma mentira. Havia legitimidade na atitude?
3) O Problema da Verdade no Homem que
Sabia Javanês
A literatura de Lima Barreto
enceta preocupação perene com a solidariedade humana; trata-se de idéia base
que cimentou todo seu caminho como autor, na opinião de especialista (cf.
SEVCENKO, 2003, p. 220). Nesse sentido:
“O primeiro sintoma da autenticidade dessa
convicção é o sentimento misto de desprezo e náusea que o autor votava a toda e
qualquer atitude, emoção, símbolo, objeto ou pessoa que pudesse significar uma
ameaça para a identificação profunda entre todos os seres humanos. Assim era com a concorrência, as rivalidades, as hostilidades, os
animais ferozes, os galos de briga, os esportes violentos, a guerra, os motins
e levantes, qualquer forma de conflito e violência enfim. Era obsedante a sua
revolta contra a ‘filosofia da força’, pretensamente inspirada em Nietzsche
(...) (SEVCENKO, cit., p. 221).
Parece que Lima Barreto pretendia alcançar equilíbrio
nas relações humanas, que deveriam ser marcadas pela franqueza e pela
honestidade; não haveria espaço para chicanas. De tal modo, inconcebível o
triunfo que decorreria de uma mentira. O
Homem que Sabia Javanês é, nesse sentido, denúncia contra bacharelismo que
não tinha limites para que se alcançasse posição social de relevo. É ainda de
Nicolau Sevcenko a passagem que segue:
“Simultânea à
preocupação da solidariedade, havia no autor o anseio de uma estabilidade
fundamental de todas as coisas, que neutralizasse toda forma de concorrência
entre os homens e reorientasse as energias daí tiradas no sentido de um
convívio mais íntimo, profundo e simpático com a natureza, seus frutos e seus
filhos.” (SEVCENKO, cit., loc. cit.).
O truque usado
por Castelo rompe com concorrência natural que deveria reger as relações
humanas. A denúncia reflete a vida de Lima Barreto e, nos termos de estudiosa
de nossa literatura:
“ Afonso Henriques de Lima Barreto
(1883-1922) nasce e morre no Rio de Janeiro: e sua existência é (em tríptico com as vidas de Cruz e Sousa, negro, e Machado de
Assis, mulato dissimulado) aquela mesma, atribulada e complexada, do homem de
cor numa sociedade não racista, mas classista: e em que, não por acaso, a cor
coincide amiúde com a classe. Machado de Assis reagia com a epilepsia e a
integração, Lima Barreto com o alcoolismo e o protesto socialista. Seu mundo
não é o alto-burguês de Machado de Assis, mas o
pequeno-burguês e proletário das suas personagens gogolianas:
escrivães, empregadinhos, gente de bairros suburbanos em época de serenatas e
tragédias de periferia. E cada página escrita transpira à autobiografia: a
história transposta do mestiço que foi Lima Barreto, filho de um tipógrafo e de
uma professora primária, órgão de mãe aos sete anos, protegido pelo padrinho, o
visconde de Ouro Preto (...) hóspede com o pai, que aí trabalha como guarda e
depois levará consigo a lembrança alucinante vida afora, alcoólatra precoce e,
por sua vez, hóspede intermitente de manicômios. Mas também intelectual
empenhado como poucos e, culturalmente preparado pela leitura dos grandes
romances franceses e russos para a adesão entusiasta à Revolução de Outubro”. (STEGAGNO-PICCHIO, 2004, p. 441).
O relato do Homem
que Sabia Javanês é autobiográfico na medida em que o autor se vê como quem
quer que tenha sido prejudicado com os meios que Castelo usou para alcançar o
cargo público que detinha. Não se trata de autobiografia, no sentido de que
Lima Barreto se retrataria em Castelo, evidentemente. O conto é autobiográfico,
bem entendido, porquanto Lima Barreto se via como membro de qualquer sociedade
que desprezasse a meritocracia, em favor do apadrinhamento. Assim:
“Afonso
Henriques de Lima Barreto retratou-se impiedosamente nas obras que realizou.
Não somente a si mesmo, como a toda a humanidade, captando o que há de
essencial na alma humana: o amor. Por mais contraditório que pareça falar de
tal sentimento, uma vez que o escritor não o tratou diretamente na obra e,
muito menos, em vida. Demonstra, ao contrário, que sempre esteve longe de tal
sentimento. Mas é justamente da negação que vem a confirmação”.
(NOLASCO-FREIRE, 2005, p. 123).
A
verdade que substancializa o pensamento de Castelo, denunciada por Lima
Barreto, previa relatividade que nos remete a aforismo de Nietzsche:
“O
conhecimento só pode admitir como motivos o prazer e o desprazer, o proveitoso
e o nocivo: mas como se arrumarão esses motivos com o senso da verdade? Pois
eles também se ligam a erros (na medida em que, como foi dito, a inclinação e a
aversão, e suas injustas medições, determinam essencialmente nosso prazer e
desprazer. Toda a vida humana está profundamente embebida na inverdade: o
indivíduo não pode retirá-la de tal poço sem irritar-se com seu passado por
profundas razões, sem achar descabidos os seus motivos presentes, como os da honra,
e sem opor zombaria e desdém às paixões que impelem ao futuro e a uma
felicidade neste”. (NIETZSCHE, 2001,
p. 40).
Poder-se-ia argumentar que Castelo
não causou mal a ninguém, e que até fora importante no resgate histórico do
velho Barão, que morreu acreditando ter cumprido a promessa de traduzir o livro
que lhe servia de amuleto. Ter-se-ia como suporte teórico uma compreensão de gradualização da verdade, e a questão fora mais uma vez
abordada pelo ceticismo de Nietzsche:
“ Pretensos graus de verdade. – Um dos mais
freqüentes erros de raciocínio é este: se alguém é verdadeiro e sincero
conosco, então ele diz a verdade. Assim a criança acredita nos julgamentos de
seus pais, o cristão nas afirmações dos fundadores da Igreja. De igual maneira,
não se quer admitir que tudo o que os homens defenderam com o sacrifício da
felicidade e da vida, em séculos passados, eram apenas erros: talvez se diga
que eram estágios da verdade. Mas no fundo as pessoas acham que, se alguém
acreditou honestamente em algo e lutou e morreu por sua crença, seria bastante
injusto se apenas um erro o tivesse animado. Tal acontecimento parece
contradizer a justiça eterna: eis porque o coração dos homens sensíveis sempre
decreta, em oposição a sua cabeça, que entre as ações morais e as percepções
intelectuais deve necessariamente existir uma ligação. Infelizmente não é
assim: pois não há justiça”. (NIETZSCHE, cit., p. 56).
E complementava o filósofo alemão, suspeitando
de qualquer forma de verdade, assunto que será retomado pelo chamado pensamento
pós-moderno, especialmente na crítica que se opõe às chamadas grandes narrativas:
“A mentira. – Por que, na vida
cotidiana, os homens normalmente dizem a verdade? – Não porque um deus tenha
proibido a mentira, certamente. Mas, em primeiro lugar, porque é mais cômodo;
pois a mentira exige invenção, dissimulação e memória (...)” (NIETZSCHE, cit., loc.cit.).
Castelo teve grande trabalho em
sustentar a mentira. Quando indagado a respeito de onde aprendeu javanês, inventpu um pai marinheiro que passara pela Bahia. Teria de
se lembrar freqüentemente da urdidura que tramou, correndo o risco de ser
desmascarado, o que poderia ter acontecido com a necessidade de intérprete para
o marinheiro preso no Rio de Janeiro, não fosse a
autoridade diplomática holandesa. Retomando-se o problema colocado alguns
parágrafos acima, deve-se afirmar que há prejuízos causados por Castelo. A vaga
de cônsul fora preenchida por um estelionatário da cultura. Suposta harmonia,
idilicamente imaginada por Lima Barreto fora rompida. Na impressão de seu mais
importante biógrafo,
“Na sua aparente
humildade, não era homem para se dobrar a ninguém. O orgulho doía-lhe mais que
o estômago. E assim, as oportunidades que apareciam não foram aproveitadas, por
inteiro, contribuindo apenas, a cada malogro, para aumentar-lhe o sentimento de
revolta, que foi nele, por assim dizer, inato.” (ASSIS BARBOSA, 1988, p. 131).
Ao denunciar o homem que sabia javanês Lima Barreto tornava pública a revolta que
vivia. Intelectual, porém com possibilidades limitadas de ascensão social, por
conta das origens e da ascendência escrava, Lima Barreto fora preterido
inúmeras vezes. Não conseguiu a imortalidade da Academia Brasileira de Letras.
Jamais foi lembrado para posto no exterior. Mofou como amanuense em repartição
pública que odiava. Enquanto isso, muitos
professores de javanês atendiam congressos e representavam o país no
exterior. Quando voltavam, eram recebidos com júbilo. Lima Barreto, vencido
pela dipsomania, terminava seus dias num manicômio.
Se os fins justificam os meios, a premissa legitimaria
a estratégia de Castelo. Se do ponto de vista kantiano, a verdade o é para quem
o merece, não se saberá se o velho Barão teria direito de não ser enganado. Mas
se a verdade é imperativo para convivência sadia e
igualdade de chances de concorrência (Chancengleicheit), o Homem
que Sabia Javanês inscreve-se no panteão nacional que plasma anti-heróis
marcados pelo mau-caráter.
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