A PROMO플O DE VINICIUS DE MORAES E OS PERIGOS DESTA VIDA

 

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy[1]

 

O Presidente Lula sancionou a Lei n 12.265, de 16 de junho de 2010, que promoveu post mortem o diplomata Vinicius de Moraes a Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata. Assegura-se aos atuais dependentes de Vinicius os benefcios de penso correspondentes ao cargo para o qual se fez a promo豫o.

Vinicius entrou para a carreira diplomtica aps disputadssimo concurso, em 1943. Em 1946 serviu em Los Angeles, seu primeiro posto. Vinicius foi exonerado do Itamaraty em 1969. Atingido pelo Ato Institucional n 5, conta-se que no dia da notcia Vinicius estava em Portugal - - salazaristas portugueses tentaram atingi-lo com bravatas. Vinicius enfrentou os agitadores. O confronto lhe rendeu aclama寤es de jovens e liberais e sensveis e apaixonados estudantes que ofereceram as becas para que o poeta sobre elas caminhasse. Passaram-se quatro dcadas para que se fizesse a necessria corre豫o histrica.

H notcias de que em 1979 o Presidente Lula teria convidado Vinicius para leitura de poemas no Sindicato dos Metalrgicos de So Bernardo do Campo. Fato ou verso, no importa, 40 anos depois, anfitrio e convidado se reencontram de modo inesperado.

O convidado que leu os poemas no sindicato j no mais est entre ns. Morreu em 9 de julho de 1980, de edema pulmonar, no Rio de Janeiro. Legou-nos uma obra potica inigualvel. o poeta da paixo. Cantou os perigos desta vida, para quem tem paixo principalmente. O anfitrio do episdio do sindicato venceu preconceitos, afirmou-se, elegeu-se Presidente da Repblica, celebridade internacional. Aquiesceu com a justa homenagem e com a necessria repara豫o, comprovando que humanismo e altivez de esprito no so adereos que adornam apenas diplomados e formalmente letrados.

Vinicius de Moraes substancializou a carreira diplomtica naquilo que a nobre atividade tem de mais marcante: a sensibilidade. A dissocia豫o entre diplomata e poeta mero acidente de interpreta豫o, tpico de quem apenas encontra na burocracia a disposi豫o para a afei豫o ao carimbo, forma, mesmice. No que a inusitada aproxima豫o entre ofcio e arte transforme o homenageado no campeo das causas diplomticas. Menos. que o entorno burocrtico tambm acena com enigmas da existncia, que tambm compem um conjunto de anseios e de receios, que afugentam e norteiam habilidades e aptides.

E Vincius tambm simboliza o diplomata na inteligncia, na multiplica豫o de interesses culturais, no gosto pela generalidade, no rigor com a verticalidade naquilo que se faz, no amor e no apego para com a existncia. Construiu asas. No se conformou com razes. Diplomata, poeta, compositor, jornalista, crtico de arte, estudioso da cultura, Vincius era um polmato. A sua produ豫o intelectual um patrimnio nacional. A sua sensibilidade, incomensurvel, um referencial universal. A integridade para com as causas que defendia, entre elas a mais altaneira de todas, o amor, o smbolo de uma existncia concomitantemente irrequieta e tranquila, se que esta aproxima豫o seja possvel.

Espremido por uma poca que antagonizou duas nicas vias para a constru豫o da sociedade, Vinicius no titubeou e no se comprometeu. Acima das lutas c da terra, viveu a inconstncia do amor, comprovando que a existncia tomada de um modo metafsico e inquestionvel apenas torna o homem mais um dos descontentes da civiliza豫o, em seu sentido freudiano. A luz dos olhos de Vinicius recorrentemente precisava se casar. E se casaria tantas vezes quanto necessrio fosse, na blague atribuda a uma resposta que Vinicius dera a Tom Jobim.

Vinicius de Moraes anunciou no Soneto da Fidelidade uma nova concep豫o de tempo, conformando-nos com a mortalidade, mas tornando a existncia infinita, enquanto durasse o viver, que longo, se bem vivido, ainda que o seja por um instante finito. Vinicius invertia e subvertia o andar das horas: poetou que de manh escurecia, de tarde anoitecia e de noite ardia...

A vida boa, inegavelmente. Vinicius bendizia o amor das coisas simples. Poeta em estado natural, na lembrana de Drummond, Vinicius inquietava-se com o mistrio da morte, que sublimava na paixo da vida. Catlico na origem (fez a primeira comunho em 1923), Vinicius aproximou o sentido soteriolgico de todas as religies na comunho absoluta no amor pela vida. Seu catecismo era a persegui豫o do sublime. Seu mantra a realiza豫o absoluta dos desejos nos quais se fundamenta a existncia, desprezando-se um mero sentido utilitarista, tpico de um pragmatismo que certamente desprezava.

A lei sancionada pelo Presidente Lula provoca em todos ns a lembrana de um excerto de Vinicius para quem, depois de tantas retalia寤es, tanto perigo, eis que ressurgiria no outro o velho amigo, nunca perdido, sempre reencontrado. Comprova-se, definitivamente, que depois de idas e vindas, triunfam o ardor, a persistncia e a paixo de todos quantos enfrentamos e vivemos intensamente os perigos desta vida.



[1] Consultor da Unio. Professor do Programa de Mestrado em Direito da Universidade Catlica de Braslia. Professor assistente no Instituto Rio Branco.