INTRODUÇÃO AO
DIREITO CONSTITUCIONAL CHINÊS
Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy
Professor do Programa de Mestrado em Direito da
Universidade Católica de Brasília
A tradição
chinesa desdobrou-se em um mundo
fechado, que recusava a presença
e o contato com
o estrangeiro e que
para o ocidente
era tema
das incríveis narrativas
de Marco Pólo.
Tratava-se de um universo chinês, reflexo
de circunstância que
transcendia mera expressão
de síntese geopolítica
(ABI-SAD, 1996, p. 13). Inserida em mundo globalizado, nos
moldes de capitalismo
guanxi, desenvolvido
por governos
locais e provinciais
conectados com empresas
chinesas localizadas no exterior (cf.
CASTELLS, 2002c, p. 358), a China há muito
afastou-se do imaginário
romântico de Henfil, que a visitou antes da coca-cola, e que
deu início a seu
livro prosaico
escrevendo que a China já foi vista como país pobre, símbolo
da mortalidade infantil,
juvenil e profissional,
no qual se desdobram negócios excusos, que
engendram a popular referência
de negócio da China (cf. HENFIL, 1984, p. 9).
A revolução
comunista de 1949 desdobra-se em dois momentos. Uma fase ortodoxa que se
alastra até a morte
de Mao em 1976 e um
período pragmático, que chega até nossos dias (cf. ROBERTS, 1999, p. 256). A prosperidade com que hoje se acena ameaça modelo autoritário, porque
estimulante de questionamentos e
problematizações (cf. FAIRBANK e GOLDMAN, 2002, p. 455). Ao lado de suposta
incompatibilidade entre
a normatividade do regime de Mao e a maximização da riqueza de tentências mais
pragmáticas, paira ainda
a tradição que
radica em Confúcio, em
torno da qual
se ergue a civilização chinesa, cuja ética clássica escora-se em
passagens literárias e filosóficas sublimes, dando conta de que mesmo que tenhas apenas grãos ordinários como
alimento, água
para beber e teu braço dobrado como travesseiro, ainda
podes ser feliz (...) riquezas e honrarias
sem justiça
são para mim como nuvens passageiras (CONFÚCIO, 2005, p. 34). Emerge
deste triângulo cultural vida dinâmica, para a qual se ensaia uma constituição
de feições ocidentais,
de que trato
em seguida.
O texto
constitucional chinês conta
com extenso
preâmbulo que
sintetiza a história do país. Afirma-se de início
que a China é um dos países mais antigos do mundo.
Indica-se que as diversas nacionalidades chinesas, que contribuíram para a criação
de uma cultura brilhante,
possuem tradições revolucionárias
gloriosas. Observa-se que a partir de 1840 da Era
Cristã as tradições feudais chinesas
sofreram impactos que
transformaram o país, cuja estrutura
passou a transitar do semicolonial para
o semifeudal. Conta-se, ainda no preâmbulo do texto
constitucional, que
o povo chinês tem lutado incessantemente, objetivando a independência
do país, a libertação
nacional e a conquista
da democracia. Observa-se no referido preâmbulo que
ao longo do século
XX transformações históricas sacudiram a China.
Refere-se à revolução
de 1911, dirigida por Sun Yat-Sen (que é nominado de doutor),
e que teria abolido a monarquia feudal,
fundando a República Chinesa. Restava no entanto inacabada a tarefa
histórica do povo
chinês (nos termos
do preâmbulo); a empreitada
de enterrar o imperialismo
e o feudalismo deveria ser
cumprida. Sob a direção
do Partido Comunista
Chinês (e de seu guia,
Mao Tsé-Tung), as diferentes nacionalidades chinesas, depois
de anos de lutas
e de dificuldades, conseguiram finalmente, em
1919, derrubar o imperialismo,
o feudalismo e o capitalismo
burocrático. Consolidava-se a vitória popular, e ainda nas palavras
do preâmbulo da constituição
chinesa, conquistava o povo a posição de senhor e mestre do próprio país.
Continua o preâmbulo
indicando que após
a fundação da República
Popular Chinesa a sociedade
passou pela transformação progressiva de democracia
para regime socialista pleno.
Realizou-se a apropriação socialista
da propriedade privada
dos bens de produção,
abolindo-se o sistema de exploração do homem
pelo homem, mediante a instalação
definitiva do regime
socialista. A ditadura
democrática (sic) popular,
dirigida pela classe
trabalhadora é baseada em aliança entre operários
e camponeses. Afirma-se que o povo chinês e o exército
popular de libertação
enfrentaram agressões, sabotagens e provocações
armadas do imperialismo
internacional, conseguindo manter a independência e a segurança do país,
reforçando e segurança nacional,
desde então
consolidada.
O preâmbulo
da constituição chinesa afirma que graças aos sucessos obtidos pelo movimento de reconstrução
econômica logrou-se a obtenção de sistema
socialista independente
e relativamente completo,
garantindo-se o crescimento da economia agrícola.
Observou-se que a educação,
a ciência e a cultura
se desenvolveram a partir do triunfo
da revolução comunista.
O preâmbulo afirma que
a educação ideológica socialista registrou sucessos, melhorando-se as condições de vida
da grande massa
do povo chinês.
Reafirma-se a liderança
do marxismo-leninismo, sob a batuta de
Mao-Tsé-Tung, em que
pese obstáculos e dificuldades.
Consigna-se que a China encontra-se
vivendo a primeira etapa
do socialismo. O Estado
teria como tarefa
fundamental a concentração
de esforços relativos
a modernização socialista,
levando-se em conta
as peculiaridades chinesas. O preâmbulo da constituição
chinesa consigna que os exploradores do país
foram liquidados enquanto classe
social. Continua-se com
a declaração de que
Taiwan é território sagrado
da República Popular
da China, cuja obra
grandiosa de reunificação depende da absorção daquele território.
O preâmbulo
da constituição chinesa insiste que a edificação
do socialismo deve ser
feita por meio do apoio da classe trabalhadora, dos camponeses e dos intelectuais. Esses
grupos teriam formado ampla frente patriótica, ao longo
dos anos do avanço
revolucionário. A direção
fora empreendida pelo
partido comunista.
Prevê-se que a República
Popular da China seja um Estado multinacional unitário,
cuja criação
dependeu da associação das diversas nacionalidades que
convivem no país. Determina-se que na busca de
uma nacionalidade única
e forte deve se combater
o chauvinismo de uma grande nacionalidade
imaginária, plasmada no chauvinismo do grande
Han, bem como
a todos os nacionalismos
localizados. Consigna-se que o Estado vai se valer de todos os esforços
para contribuir para a prosperidade comum
das diversas nacionalidades.
O preâmbulo
da constituição da China afirma que as realizações
revolucionárias e a edificação do socialismo são inseparáveis do apoio dos povos do mundo.
O futuro da China estaria ligado ao futuro do mundo
inteiro. De modo
a desenvolver suas
relações diplomáticas e o intercâmbio econômico
e cultural com os outros
povos, a China leva
em conta os seguintes princípios,
a saber: respeito
da soberania e da integridade
territorial, não
agressão mútua,
não ingerência
em negócios
internos, igualdade
e vantagens recíprocas, coexistência pacífica.
Reafirma-se a continuidade da luta contra o imperialismo, contra
hegemonias, contra
o colonialismo. O preâmbulo
da constituição chinesa reforça solidariedade
para com todos os povos da
Terra, apoio às nações
oprimidas e ajuda aos países em desenvolvimento. Como
pano de fundo
busca-se o desenvolvimento da economia nacional
e a obtenção da paz
mundial e do progresso da humanidade. A constituição
é documento que
consagra sob forma normativa a luta do povo
chinês, ainda nas palavras
do extenso preâmbulo
que se acabou de considerar.
Após o longo
preâmbulo, o texto
constitucional chinês propriamente dito indica que
a República Popular
da China é um Estado
socialista de ditadura
democrática popular,
dirigida pela classe
trabalhadora e baseada em aliança entre operários
e camponeses. Decreta-se que o regime socialista é o sistema
fundamental da República
Popular da China, proibindo-se que qualquer indivíduo ou organização atente contra
o regime. Afirma-se que
todo o poder pertence ao povo.
Esse poder é
exercido por meio
de uma Assembléia Nacional
Popular e pelas assembléias
populares locais.
O povo participa na gestão
do país, dos negócios,
e da cultura nacional,
do modo como
previsto em lei ordinária.
Os órgãos
de Estado funcionam nos
termos de um
centralismo democrático. A Assembléia Popular
Nacional e as assembléias
locais contam com
membros democraticamente eleitos. Órgãos administrativos,
judiciários e do ministério
público são
escolhidos pelas assembléias populares, em relação a quem são responsáveis
e por quem
são controlados. Um
poder central
nacional concentra condição
de orientador de políticas
e ações, tomadas
com participação e dinamismo
das populações locais
interessadas.
Afirma-se que
todas as nacionalidades
são iguais
em direitos
no quadro da República
Democrática da China. O Estado garante o gozo
de direitos e de interesses
legítimos de minorias
nacionais. Condenam-se todas as formas de discriminação
e de opressão. Garantem-se a todas as minorias nacionais
o poder de uso
da própria língua,
da escrita, bem
como o direito
de conservação ou
de reforma de usos e costumes.
O Estado
assegura a unidade e a integridade da legalidade
socialista. Proíbe-se explicitamente a antinomia de regra
administrativa ou
norma local
em face
do texto constitucional.
Obriga-se o respeito da constituição, com
especial indicação
de forças armadas,
partidos políticos
e agrupamentos sociais.
Não se outorgam privilégios
de inaplicabilidade de regras constitucionais.
O regime
econômico socialista
da República Popular
da China tem como base
a propriedade socialista
e pública dos meios
de produção. A economia
rural e familiar
é fundada sob regime
de cooperação, em
suas várias formas,
que variam da produção,
para o armazenamento, venda, crédito, bem como para o consumo. Os trabalhadores
que participam dessas cooperativas têm o direito,
nos limites
da lei, de explorar
parcelas da terra
cultivável, de comercializar a produção
subsidiária e excedente
familiar e de possuir
cabeças de gado
a título individual.
Esses direitos
foram incorporados mediante emenda constitucional,
passada em
29 de março de 1993. As diversas formas de economia
cooperativa que
englobem empresas com
funcionamento em
áreas de aglomeração
urbana, relativas ao artesanato, à indústria,
à construção civil,
aos transportes, ao comércio
e aos serviços em
geral pertencem aos setores
socialistas da economia,
na maneira como
fundados na propriedade coletiva das classes
trabalhadoras. O Estado protege direitos e interesses
legítimos das organizações
econômicas coletivas, urbanas e rurais, e
ainda incentiva,
orienta e mantém o desenvolvimento
de uma economia coletiva.
Os recursos
minerais, águas,
florestas, montanhas,
terras incultas, dunas
de areia, além
de todos os demais
recursos naturais
são propriedade
do Estado. Ao indicar
que tais
bens são
propriedade do Estado
a constituição chinesa toma a precaução
de adiantar que
por propriedade
do Estado se deva
entender propriedade
de todo o povo.
Exceções são
feitas a recursos
submetidos a propriedade
coletiva, definidos
como tal,
a exemplo, entre
outros, de florestas.
O Estado garante a utilização
racional dos recursos
naturais e protege plantas
e animais raros.
É proibido a todos, pessoas ou organizações
populares, a apropriação
ou a destruição
de recursos naturais.
As terras em
ambiente urbano
são de propriedade
exclusiva do Estado.
Por conta de interesse público
o Estado pode requisitar
o uso de qualquer
terra, nos termos de lei. Em 12 de abril
de 1988 reformou-se excerto da constituição chinesa, disciplinando-se que nenhuma organização
ou indivíduo
podem apropriar-se de terras,
vendendo-as ou comprando-as; é que o direito
de utilização do espaço
depende de regulamentação específica de lei, a partir do texto constitucional.
A economia
individual dos trabalhadores
urbanos e rurais,
decorrente de atividade disciplinada e prevista
em lei,
constitui complemento do setor
socialista, que
é baseado no regime de propriedade pública.
O Estado protege direitos e interesses
legítimos da economia
desenvolvida de modo
individual, orientando, auxiliando e
controlando por meio
de medidas administrativas o implemento de tais
atividades. O Estado
permite que o setor
privado da economia
possa existir e se desenvolver
nos termos
da lei, enquanto
complemento da atividade
socialista, de acordo
com reforma constitucional
já citada, de 12 de abril
de 1988.
Indica-se que
os bens públicos
socialistas são
sagrados e invioláveis.
O Estado tem obrigação
de protegê-los, nos termos
da constituição chinesa. O Estado também
protege ao direito dos cidadãos exercerem a propriedade
sobre receitas
legítimas, economias,
residências e demais
bens legalmente
adquiridos. O Estado protege, nos termos da lei, o direito
de herança, referente
a bens de cunho
necessariamente particular.
O Estado
compromete-se em exaltar
o ardor dos trabalhadores
e em elevar os
conhecimentos técnicos
dos mesmos. Compromete-se também em propagar as ciências
e as técnicas mais
avançadas, de modo a se aperfeiçoar
o sistema de gestão
econômica e o modelo
de exploração empresarial,
aplicando um sistema
socialista de responsabilidade
em suas
mais diversas formas.
O Estado aplica regime
de economia absoluta,
lutando contra todas as formas de gastos
perdulários. Promove-se modelo
racional de relação
entre acumulação
e consumo, tendo-se em
vista o interesse
do Estado, das coletividades
e dos indivíduos, o desenvolvimento
da produção, a melhora
gradual das condições
de vida material
e cultural do povo chinês.
A constituição
da China determina que o Estado implementará uma economia socialista
de mercado, locução
que decorre de emenda
constitucional de 29 de março de 1993. Para tais fins,
remete-se a legislação econômica, a reajustes
macroeconômicos, proibindo-se qualquer atitude ou atividade que prejudique a nova
ordem sócio-econômica. Empresas públicas gozam de autonomia
para explorar a economia. Também
se prevê autonomia de gestão, cujos limites serão
fixados por lei.
Organizações econômicas coletivas têm direito de conduzir com independência as
respectivas atividades econômicas,
respeitando-se limites fixados por leis
ordinárias. Determina-se gestão democrática para essas empresas.
A abertura
externa ficou consolidada com excerto constitucional indicativo
de que nos termos das disposições
legais da República
Popular da China autorizam-se empresas, organizações
econômicas e cidadãos de países estrangeiros
a investirem e praticarem diversas formas
de cooperação econômica
com empresas
e organizações econômicas chinesas.
E também se determinou que as empresas e organizações
econômicas de países estrangeiros, bem como as empresas
mistas, de capital chinês e estrangeiro, instaladas em
território chinês, devem observar
as leis da República
Popular da China. E de modo a se implementar
proteção ampla
ao capital estrangeiro
consignou-se que os direitos e interesses legítimos
das empresas estrangeiras são protegidos pela
lei. O texto
constitucional chinês ampara direitos
e interesses legítimos
de estrangeiros que
vivem no território da China,
obrigando-se que esses,
no entanto, respeitem as leis chinesas. Ainda,
a República Popular
da China se obriga a oferecer asilo
a todo estrangeiro
que requeira o benefício
e o faça por razões
políticas.
A constituição
da China imputa ao Estado a obrigação de desenvolver uma educação socialista
que tenha por
objetivo elevar
níveis científicos
e culturais do povo. O ensino primário é obrigatório.
Incentivam-se organizações de economia coletiva
e instituições estatais,
no sentido de se protegerem obras educacionais
de todos os tipos.
Em plano
glotológico, o Estado generaliza o emprego da língua
padrão ao longo
de todo o país.
O Estado deve ainda
preservar e desenvolver
as ciências humanas e sociais, deve contribuir
para a vulgarização dos conhecimentos
técnicos e científicos,
e também deve recompensar os avanços da pesquisa,
das invenções e das inovações
técnicas.
Determina-se que
o Estado deva
desenvolver serviços
médicos e sanitários,
a medicina e a farmacologia
modernas, além da medicina
e da farmacologia tradicionais. Indica-se
também que
o Estado deva
prosperar os esportes
e as atividades esportivas
de massa, com
o objetivo de se melhorarem as condições físicas
do povo chinês. Ao Estado
incumbe o desenvolvimento das letras e das artes,
da imprensa, do rádio
e da televisão, das bibliotecas,
das casas de cultura,
das obras culturais em
geral que
se prestem ao desenvolvimento do socialismo, bem como deve encorajar as atividades culturais de massa.
A constituição chinesa determina que o Estado deve proteger os sítios pitorescos,
os monumentos históricos,
os objetos antigos
de valor e outras heranças
culturais que identifiquem a importância do legado
chinês para a humanidade.
É o caso das muralhas
da China.
É indicação
constitucional que
o Estado supervisione a formação de pessoal
especializado para servir
ao socialismo. Deve o Estado insistir na edificação de civilização
espiritual socialista,
fomentando educação que
possa realizar ideais
morais e socialistas,
formando-se um povo
disciplinado e obediente
das leis. Algumas virtudes
são categorizadas como
de mais alto
indicativo de honra.
Nomeadamente, trata-se do amor à pátria, do amor
ao próprio povo,
do amor ao trabalho,
do amor ao socialismo,
da busca da educação
popular em
torno do patriotismo,
do coletivismo, da internacionalização
do comunismo, da concepção
de espírito calcado no materialismo dialético e no materialismo
histórico, a par
da luta contra
ideais capitalistas
e feudais que remontam a épocas decadentes, a reproduzirmos expressões da constituição
chinesa.
Ao Estado
incumbe o desenvolvimento do planejamento popular,
de modo que
se assegure a harmonia entre o crescimento
demográfico e os planos de desenvolvimento econômico
e social. Do ponto
de vista ambiental, o Estado deve proteger e melhorar o meio
ambiente, lutando incessantemente
contra indicativos
de poluição. O Estado
se vê obrigado
pela constituição
a organizar e fomentar
o plantio de árvores,
além de proteger
as florestas.
Tem-se que
o Estado deve perseguir
modelo de administração
simplificada, com sistema
de responsabilidade pessoal,
com o objetivo
de se melhorarem as condições de trabalho, especialmente
no que toca
ao combate da burocracia.
Determina-se que todos organismos
estatais e respectivos
funcionários devem se apoiar
no povo, com
o qual devem manter
laços estreitos,
ouvindo opiniões e sugestões,
submetendo-se ao controle popular, de todo
coração.
O Estado
se vê obrigado
a assegurar a ordem
pública, realizando a repressão aos atos
de traição nacional,
a exemplo de atividades
contra-revolucionárias, castigando os que
comprometem a segurança pública,
aos que sabotam a economia
socialista ou
que se dedicam a atividades
criminais. Do ponto de vista
criminológico o Estado chinês se vê determinado
a punir e a reeducar os
criminosos. As forças
armadas chinesas pertencem ao povo. A tarefa primordial do exército
é a defesa nacional.
De tal modo,
ao exército a constituição
chinesa incumbe a resistência a qualquer
forma de agressão
externa, a defesa
da pátria, a proteção
do povo para que o mesmo
trabalhe em paz,
na busca da construção
de um país
melhor.
A constituição
chinesa prevê divisão administrativa
complexa. O país
é fracionado em províncias,
em regiões
autônomas e em municipalidades,
todas diretamente ligadas
a autoridade central. Províncias
e regiões autônomas são
divididas em departamentos
autônomos, em
distritos, em
distritos autônomos
e em municipalidades.
Os distritos e os distritos
autônomos são
divididos em cantões,
em cantões
de nacionalidade e em
comunas.
Proclama-se a igualdade
de todos os cidadãos
em face
da lei. A maioridade
eleitoral, ativa
e passiva, dá-se aos dezoito anos de idade. Não se distingue nacionalidade
(no caso, refere-se ao local do território
chinês de origem do interessado), raça, sexo, profissão, origem
social, fé
religiosa, nível
de instrução, fortuna
pessoal, tempo
de residência, excetuando-se aqueles que
estão privados do gozo
de direito políticos,
por força
de lei. Garante-se a liberdade de expressão,
de imprensa, de reunião,
de associação, de desfile
e de manifestação.
Outorga-se a liberdade
religiosa. Não
se permite qualquer obrigatoriedade
de vínculo religioso,
para quaisquer fins.
O Estado protege as práticas
religiosas que reputa como normais. Proíbe-se que
se sirva da religião para
distúrbios sociais.
Veda-se a dependência de qualquer associação
ou agremiação
religiosa com
dominação estrangeira.
Decreta-se que
liberdade individual
dos cidadãos da República
Popular da China é inviolável.
Não se permite qualquer
forma de prisão que não decorra
de decisão de ministério
público ou
justiça popular.
Determina-se que prisões
devam ser realizadas, necessariamente, por autoridades
públicas. Decreta-se a inviolabilidade
da dignidade pessoal
dos cidadãos do país.
Proíbe-se o ultraje,
a difamação, as falsas acusações. O domicílio
também é inviolável.
Veda-se qualquer perseguição ilegal. A lei também deverá garantir a liberdade e o segredo
das correspondências.
Quanto ao trabalho,
consignou-se que os cidadãos da República Popular
da China têm direito e dever
de trabalhar. O Estado
se obriga a criar empregos,
a melhorar as condições
de trabalho, a desenvolver
a produção, a assegurar a
remuneração e o bem
estar dos trabalhadores.
Uma emenda constitucional
de 1993 explicitou que o trabalho é dever glorioso de todo cidadão que possa trabalhar.
Consignou-se também que
os trabalhadores
das empresas públicas e das organizações coletivas de trabalho
rural e urbano
devem se comportar, em
ambiente laboral, como
senhores do país.
E ainda, o Estado encoraja a emulação socialista
do trabalho, concordando com
recompensas para
operários padrão e de vanguarda. Também
se determinou na constituição chinesa que o Estado concede a formação
profissional necessária
aos cidadãos, antes
que se encontre um
emprego. Garante-se o direito ao repouso.
Prevê-se modelo de aposentadoria,
garantida pelo Estado.
Outorga-se o direito
à instrução, que
se caracteriza como um
dever do cidadão.
Indicou-se na constituição chinesa que o Estado
fornece formação às crianças,
aos adolescentes e aos jovens, nos planos moral, intelectual
e físico. O casamento,
a família, a mãe
e as crianças recebem a proteção do Estado.
O planejamento familiar
é obrigação do marido
e da esposa. A educação
dos filhos é dever
dos pais. Proíbem-se -os
maus tratos
de anciãos, mulheres
e crianças. Aos cidadãos
da China prescreve-se a obrigatoriedade
de preservação da unidade
do país, bem como o dever de se preservarem
as diversas nacionalidades.
Indica-se que
os cidadãos da República
Popular da China devem respeitar
a constituição e as leis,
guardar os segredos
de Estado, cuidar
dos bens públicos,
observar a disciplina do trabalho e ainda reverenciar a ordem pública e
as regras de moral
social. Há o dever
de se defender a segurança,
a honra e os interesses
da pátria. É dever
sagrado de todo
cidadão a defesa
da pátria e a resistência
a qualquer forma
de agressão. O serviço
militar é dever de honra. Do ponto de vista tributário
consignou-se laconicamente que os cidadãos
da República Popular
da China têm o dever de pagar
os impostos previstos
em lei.
O Estado
estrutura-se em Assembléia
Popular Nacional
que consiste no órgão
supremo do poder
estatal. Tem como
braço permanente
um Comitê.
A Assembléia e o Comitê
substancializam o poder legislativo
chinês. A lei
define os modos e requisitos
de eleição para
os membros do Comitê
e da Assembléia. O mandato
do representante popular na Assembléia é de cinco
anos.
A referida Assembléia
Popular exerce número
extenso de funções.
Entre elas,
tem o poder de emendar a constituição, de cuja
aplicação é responsável,
de elaborar o código
penal e o código
civil e as leis
fundamentais referentes
à estrutura do Estado.
A Assembléia elege o presidente e o vice-presidente da República.
Escolhe o primeiro-ministro, o presidente de uma comissão
militar, o presidente
da corte popular
de justiça, o procurador-geral do ministério público.
Esta Assembléia também
examina e aprova o plano de desenvolvimento da economia
nacional, o orçamento,
e ainda decide questões
referentes à guerra
e a paz. Emendas
constitucionais exigem maioria de dois terços dos deputados
da Assembléia.
O Comitê Permanente
tem volume grande
de missões institucionais. É este Comitê que interpreta a constituição
e as leis do país.
Vota e modifica as leis
em geral,
inclusive em relação a lei marcial. O Comitê decide sobre
anistia, nomeia e monitora
representantes da China no estrangeiro,
determina mobilizações nacionais,
gerais ou
especiais. A lei
fixa o funcionamento
da Assembléia e do Comitê.
O Presidente
da República é eleito pela Assembléia
Popular e deve contar
com mínimo de
45 anos. A duração
do mandato segue a do mandato da Assembléia
e permite-se apenas uma reeleição. O presidente
promulga as leis, cuida do ministério, proclama
a lei marcial,
declara a guerra e a mobilização popular. Recebe os representantes diplomáticos estrangeiros, celebra, ratifica e denuncia tratados internacionais.
O primeiro-ministro dirige o Conselho de Negócios
do Estado. O Conselho
de Negócios toma
medidas administrativas para
fiel cumprimento
das leis e da constituição.
Um Comitê
Militar Central
toma conta
dos problemas militares.
O Presidente e o Vice-Presidente da República dirigem o referido comitê.
O poder judiciário é exercido por
tribunais populares.
No topo encontra-se uma Corte
Popular Suprema.
Na base, tribunais
populares locais,
além de tribunais
militares e de pequenos
tribunais populares
especiais. O presidente
da Corte Popular
Suprema exerce mandato
de mesma duração
da Assembléia Popular.
Ele é reelegível, porém
por apenas
mais uma vez.
A organização desses tribunais populares
é definida por
lei. As causas
são julgadas em
audiências públicas, com exceções
previstas em norma
específica. Ao acusado garante-se a ampla defesa.
Garante-se a autonomia dos tribunais populares
que não
podem sofrer ingerência
de outros setores
da administração. Um
ministério público
popular vela
pela correta
aplicação das leis.
O mandato do procurador-geral, chefe do ministério público, coincide com
o mandato do chefe
da Corte Popular
Suprema.
Garante-se a independência do ministério
público popular.
O texto
constitucional chinês prevê,
nos seus
últimos três
artigos, que
a bandeira do país
seja vermelha com
cinco estrelas,
que o emblema
nacional seja o portal
da Praça da Paz
Celestial e que
a capital da república
seja Pequim.
São esses, em linhas gerais, os
pontos essenciais que identificam o sistema constitucional chinês. Identifica-se
modelo intrigante, instigante, perturbador. O texto propicia encontro entre as
tradições ocidentais e orientais, vinculando-se constitucionalismo a
confucionismo, em ambiente pós-comunista e efervecentemene neocapitalista,
comprovando que imaginação institucional é prerrogativa de pensamento de
vanguarda, com o qual se dissolvem preconceitos e fórmulas fixas.
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